quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mesada dos filhos x Ética dos filhos

Hoje li a seguinte postagem:


"Pai posta como calcula a mesada dos filhos e faz sucesso na internet

Vitor Yamada postou, na segunda-feira, uma imagem onde mostra o que ele desconta da mesada dos filhos. A imagem já fez sucesso na internet e recebeu mais de 85 mil compartilhamentos.


Muitos pais estabelecem, desde a infância, uma quantia de dinheiro que dão aos filhos, para que estes possam aprender a administrar seu próprio "salário". Entretanto, é preciso saber dosar o "benefício" dos filhos, mostrando a eles que é preciso cumprir algumas normas e que o dinheiro não vem de forma gratuita. É essa linha de pensamento que Vitor Yamada usa com seus dois filhos, Giullia e Vitor.
(...)
O pai fez sucesso na rede e desde segunda-feira, quando ele postou, a imagem já recebeu 85 mil compartilhamentos.

Com informações de Terra.com.br"
Acredito que este pai é muito bem intencionado, mas preciso dizer: isso não está funcionando...
Se queremos formar pessoas capazes de fazerem escolhas sensatas, ponderadas, guiadas por valores morais, ou seja, escolhas que sejam boas para si e para o outro, preciso dizer: isso não vai funcionar.
Ao fazer essa lista misturamos regras que possuem um valor moral e aquelas que não. Usamos o mesmo método para tratar aquilo que envolve questões de respeito, de integridade (ofender/xingar/bater), com questões de higiene ou organização (não puxar descarga, não fechar as gavetas) ou da própria fase de vida dessas crianças ( deixar brinquedos espalhados).
Notem que são aspectos muito diferentes e de gravidade diferentes para serem todos “resolvidos” pelo mesmo método. Ora, deixar brinquedos espalhados ou não fechar gavetas são questões da organização diária que não afetam diretamente a personalidade moral das crianças. Agora, ofender as pessoas e resolver os problemas com agressividade estão relacionados ao tipo de pessoa que estamos formando e que, fundamentalmente, afetará sua história de vida, influenciará suas escolhas e as consequências que delas emanam.
Quando misturamos estes tipos de regras abrimos a possibilidade de negociar pontos que são inegociáveis, como por exemplo: ir para a escola, almoçar, jantar, colocar cinto de segurança. Este tipo de coisa não negociamos com os filhos. Ele precisa se alimentar e pronto. Ele usará cinto de segurança e pronto. Não é uma escolha perder 75 centavos e não usar cinto de segurança, não se alimentar e perder 75 centavos. Esta é uma questão de segurança, de integridade física que não deve ser negociada.
Sabemos que as regras que valem a pena seguir são aquelas em que há um princípio em jogo. Exemplo: Não bater. Esta é uma regra que vale a pena seguir por que o que está em questão é o respeito, um valor desejável universalmente. O ideal é que as pessoas sigam as regras porque conhecem e acreditam nos valores que estão em jogo. É essa relação que devemos esclarecer para nossas crianças quando pretendemos educá-las, contribuindo para sua  evolução moral. Este tipo de método mostra exatamente o contrário, faz com que as crianças obedeçam a uma regra pelo temor da punição, pelo medo de perder dinheiro.O problema disso é que também ensina o pensamento de custo x benefício e o cálculo de risco. As crianças podem pensar:
 “Puxa, quero muito desobedecer meu pai e minha mãe para fazer aquilo que desejo, perderei apenas três reais. Ainda sobrarão R$ 47. Sim , isso vale a pena”
“ Estou  com muita raiva e quero bater muito em alguém, perderei apenas dois reais. Isso vale a pena”
É o mesmo tipo de pensamento de quem coloca dólar na cueca, trafica drogas, escraviza pessoas ou se aproveita do lucro da prostituição. Sim, isso soa pesado, mas é o mesmo tipo de pensamento, só que na cabeça de adultos. O que está em jogo não são os valores morais ou os prejuízos morais que essas atitudes causam, mas o quanto custa ou o quanto vale a pena me arriscar para satisfazer meus próprios desejos, sem levar em conta o bem comum.
Realmente, ensina um tipo de administração, mas que não coordena as diferentes perspectivas da situação e nem os sentimentos e valores nela envolvidos.
Além disso, percebemos regras na lista que  muitos dos adultos não cumprem: Quem nunca reclamou para ir ao trabalho? Quem não come na sala de estar? Quem não deixa a TV ligada? Quem, muitas vezes, não deixou espalhados seus pertences?
Não que estas questões não devam ser discutidas e resolvidas, mas sabemos que elas são toleráveis e que, com um pouco de esforço, serão resolvidas. (Muito diferente dos problemas de um adulto que agride ou bate em alguém, não é mesmo?)
Vale ressaltar que para as crianças essas regras não são pré-requisitos, elas estão em formação, e enquanto adultos, é nossa missão ajudá-las, ao invés de puni-las.
Preciso dizer da exposição que este pai submeteu seus filhos? Imaginem quantos infinitos comentários maldosos seus colegas de escola podem fazer a este respeito... Afinal, hoje em dia, para as redes sociais não há fronteiras...
Acreditem: Ensinem seus filhos princípios, valores morais e não precisará dizer a eles, incansavelmente, que se é necessário cumprir as regras.

Um abraço
Pati Ottoni